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Evento realizado em 27/10/2017 - Fotos de meladm

No meu retorno das férias, a Revista TIME trouxe um alento e uma esperança por dias mais leves e lindamente imperfeitos.

Preciso confessar uma coisa horrível: acho chato ler para os meus filhos antes de dormir. É lindo, estimula a leitura, é romântico, um momento especial eu sei. Sou uma péssima mãe e não tenho muita paciência. Eles não me deixam ler, passam a página, falam por cima de mim e ficam agitados. Tá, eu leio por vezes para eles, mas incluí no ritual algo que não passo nenhuma noite sem fazer: eu canto. E funciona. É sempre a mesma música e eles já sabem que quando acabar, é virar para o lado e dormir. É, eu sei. Rs. Sou abençoada! Mas ontem eu estava sem nenhuma vontade de cantar. Queria esganar cada um, e cantar com amor e carinho, passar calma, foi MUITO difícil. Respirei umas dez vezes antes de começar e segurei o choro. Deus está vendo como eu me esforço! Rsrs. Me esforço, tenho algumas mini vitórias pelo caminho, mas sinto que estou sempre falhando. De que perdi o controle de tudo e fracassei.

O dia foi difícil. O primeiro dia de rotina pós férias foi muito difícil aqui em casa. O caos se instalou. As crianças não queriam acordar. Ela faltou o ballet, chegaram atrasados para a natação, tive que pedir 6 vezes para se arrumarem, ouvi resposta atravessada, malcriação, birra. Afe, Deus me proteja. À noite não queriam fazer a tal rotina da noite. A comida estava ruim, ela começou a chorar que não entendia o enunciado da lição de casa, depois inventou que quase perdeu a orelha quando esbarrou na mesa… aquele drama. Fez a lição com o capricho de quem tem 3 anos e rabisca feliz, e não SOSSEGAVAM na hora de dormir. Já deitados, meu mais novo começou a agitar e eu, que faço de tudo para não brigar na hora de dormir, me descontrolei e perguntei se ele queria ir ficar de castigo. Ele disse que sim, levantou e foi pro cantinho já conhecido. Era a realidade sambando na minha cara. Um verdadeiro banho de água fria que nos acorda para a realidade e GRITA: AS FÉRIAS ACABARAM E, POR SINAL, VOCÊ É UMA PÉSSIMA MÃE!!

Tinha acabado de ler a matéria da revista TIME, americana, que comprei quando embarcava de volta para o Brasil e tentava há dias ler com calma sobre o “Goddess Myth” (Mito da Deusa) que gira em torno da maternidade e ferra com a nossa vida e nos machuca. É desesperador e, ao mesmo, um alento saber que estamos MESMO todas no mesmo barco curando as mesmas feridas!

Todas nós nos sentimos pressionadas, julgadas, fracassadas em nossa missão. É a porra da perfeição que nos persegue desde que engravidamos e somos bombardeadas pelas mídias sociais e sites com informações médicas e mães blogueiras que parecem perfeitos bibelôs, mesmo saindo molhadas diretamente da banheira para dar a luz, em casa, após o trabalho de parto. Todos nos dizem o que é certo e o que é errado. Como devemos parir, alimentar nossos filhos, nos comportar, educar, se deve botar ou não de castigo, até quando devemos amamentar, se oferece ou não a chupeta. Afe, quanta regra! Quanta expectativa e, obviamente, quanto fracasso temos pela frente!

Dizem que ninguém nos avisa o que vem pela frente e eu discordo disso veementemente. A sociedade, as mulheres que já são mães, os médicos, as mídias, todo mundo nos conta sobre tudo de difícil que vamos enfrentar e tudo o que devemos fazer. Regras, regras e regras. A gente engravida e já faz aquela senhora biblioteca em casa com literatura sobre o tal puerpério. Acha que sabe tudo e até sabe muito, mesmo. Mas porque fazemos isso, meu Deus?

“O Mito da Deusa” publicado pela Revista TIME

A matéria da TIME veio exatamente de encontro com o meu sentimento e o das mães que lerem esse texto, tenho certeza! Fala sobre quantas regras nós enfrentamos, principalmente quando temos o primeiro filho e nos sentimos reféns, sem experiência e aceitamos os julgamentos e tentamos seguir tudo o que nos dizem que é o certo. A matéria aborda os sentimentos mais comuns como resultado do “Goddess Myth”, como o fracasso, a culpa, a raiva e vergonha de nossa incapacidade.

É impossível estar à altura de tantas expectativas e, como mães de primeira viagem, não vivemos ainda isso para nos sentirmos bem indo contra a maré. Tentamos de tudo, vamos no nosso limite até encontrarmos nosso jeito de fazer a nossa maternidade dar certo. Uma das entrevistadas da TIME diz que “sentiu um tipo de luto quando percebeu que o seu corpo, seu organismo, não correspondia aos seus ideais”! Meu Deus, como sofremos. É exatamente isso. Não temos controle sobre tudo e isso é uma das primeiras lições que aprendemos quando nos tornamos mães. Eu mesma passei por esse luto. Não consegui parto normal e demorei a entender o que aconteceu e que tudo bem, que eu merecia ser mãe do mesmo jeito.

Nós, mães, precisamos de muita auto-avaliação e, talvez até um segundo filho para entendermos e sentirmos de VERDADE que está tudo bem. Mesmo assim, ainda teremos sempre outras mães que fizeram diferente e nos julgarão. Mas aí é o mal da sociedade. Basta alguém parir, que vem a maldita pergunta, na lata: foi cesárea ou normal? Ai, pelo amor. É praticamente incontrolável! A gente realmente não sabe os drama pessoais do outro e, cada um, por mais feliz e perfeito que pareça, tem os seus dramas.

Li a matéria e me senti uma personagem. Poderia eu mesma, mãe brasileira, (assim como praticamente todas as mães que eu conheço minimamente) a ter dado entrevista para a revista americana.

A Revista TIME fez uma pesquisa com 913 mães através do SurveyMonkey e descobriu que METADE delas sentiu arrependimento, vergonha, culpa ou raiva devido a complicações inesperadas e falta de apoio.

Seguem mais alguns dados da matéria:

  • 72% das mães entrevistadas se sentiram pressionadas a passar pela gravidez, parto e amamentação de uma determinada forma.
  • Mais de 50% disseram que o parto normal era extremamente ou muito importante, porém 43% delas acabaram precisando de anestesia ou medicação e 22% acabaram passando por cesárea.
  • 20% das mulheres planejaram amamentar por pelo menos um ano e menos da metade realmente conseguiu.
  • 28% das entrevistadas disseram que a experiência do nascimento não aconteceu de acordo com o planejado.

Uma das frases mais impactantes e que mais amei da matéria foi a de “como foi possível nós acreditarmos que as mães devem seguir e obedecer conforme à natureza, uma força incontrolável da evolução, e ainda assim, fazer com que essas mesmas mães sintam-se responsáveis quando ela funciona contra nós?”. Como chegamos a isso? COMO?

A resposta da matéria para isso aponta para o número de sites com informações médicas e um toque de opinião pessoal. A revista cita o BabyCenter.com, que aparece no topo das buscas e que é uma combinação de artigos médicos e fóruns de debate. Os fóruns, segundo a revista, são conhecidos pelo grande número de “dramalhonas”, como sugere a expressão em inglês “drama llamas” e repleto de dados falsos postados por pessoas participantes. Portanto, cuidado com o que você lê!

Movimento e Literatura Anti-Shame – Uhull!

Por fim, para esperança de todos nós, uma onda “anti-shame” (de anti-vergonha), como uma resposta à criação do Mito da Deusa está crescendo. UFA!

Segundo o livro Lactivism da cientista política Courtney Jung, a amamentação tornou-se uma indústria, assim como o leite de fórmula já foi um dia. Amy Tuteur, uma ex-obstetra escreveu Push Back, em que polemiza contra o natural parenting, ou educação natural. Em Blaming Mothers, Linda Fentiman escreve que “mães e gestantes são vistas, cada vez mais, como responsáveis por todos os aspectos de bem estar de seus filhos”. Alexandra Sacks escreveu The birth of a mother, um artigo para o New York Times sobre o difícil processo de “matrescence” – a mudança total de identidade ao tornar-se mãe.

Além dos livros, há também alguns movimentos da sociedade, como a de médicos americanos no Arkansas que fundaram a organização “Fed is Best”, em português: alimentado é melhor. Liderado por médicos, enfermeiras e mães, ela promove alternativas à alimentação na luta para que bebês não passem fome. Tudo começou quando a Dra Christie Del Castillho, líder do projeto, quase matou seu filho de fome ao insistir na amamentação.

No fim, o que precisamos fazer é o que nós já sabemos e debatemos nas pequenas rodas entre amigas que confiamos: nos unir! Nos unirmos mesmo em meio à diferenças. A matéria da TIME termina dizendo que as mídias sociais poderiam celebrar as experiências individuais e criar uma comunidade pelo contraste. Que “as mães precisam se unir mesmo ao andar por caminhos diferentes. Que temos de identificar os modelos e sabermos que não há modelos a seguir. Que precisamos falar sobre fracasso, mas saber que não há fracassos”. Não poderia ter finalizado de forma melhor. Vamos nos unir e aguardar esse ciclo de julgamentos e mitos passar. Sobreviveremos juntas, afinal, mãe está sempre certa, não é mesmo?!

Parabéns para as jornalistas maravilhosas Alice Park e Alexandra Sifferlin que conseguiram emplacar essa pauta na TIME Magazine!

Para ler a matéria original, em inglês, clique aqui! “The Goddess Myth

 
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